quinta-feira, 10 de setembro de 2015

Humildade e Sabedoria

Um dos maiores empecilhos na busca do entendimento de qualquer estudo é o pretenso conhecimento já adquirido anteriormente; isso porque - naturalmente - o indivíduo em tal situação não aceitará um novo conteúdo. Quer dizer: na busca do saber é necessário que se leve em consideração um ponto importante, a compreensão de uma dada informação só ocorrerá com uma postura, estar aberto aos novos conhecimentos. Em tal situação, alguns conceitos determinantes na pesquisa podem ser traduzidos em posturas do estudioso e seus direcionamentos, algo fundamental para apreender um dado conteúdo: a curiosidade, a dúvida, a humildade e a determinação. Se a curiosidade é um importante motor na busca de novos conhecimentos e, por isso, dirige o indivíduo, a dúvida determina um postura de ação com afinco, enquanto a humildade estabelece percepção da grandeza dos conteúdos e a determinação o impulsiona. Certamente que entre esses, a humildade se destaca e se estabelece até como método de ação, tendo em vista que aquele que estuda precisa admitir que não sabe, pois só assim estará em condições de mais busca. É isso que acontece com o estudo de um determinado pensador; alguns buscam seus conhecimentos, estudam-no sem o preconceito, enquanto outros agem já acreditando saber ou posicionando-se como quem não concorda com suas posições. Isso faz remeter ao pensador grego Sócrates que afirmava a famosa frase "Só sei que nada sei", não compreendida por muitos, mas querendo apenas dizer que aquele que busca algo precisa levar a ideia de que não a possui; afinal, ninguém busca aquilo que já tem. Da mesma forma Jesus de Nazaré quando diz "Deixai vir a mim as criancinhas, porque delas é o reino do céu". Ou seja: é necessário se fazer criança, agir com humildade, afinal a busca de entendimento só será feita por quem admitir que não entende. Isso acontece devido a alguns fatores, mas principalmente por se ter um conhecimento parcial e geralmente tendencioso sobre o objeto estudado. Quando se busca por alguns pensadores, em especial, a situação é ainda mais agravante, como é o caso de Karl Marx, Nicolau Maquiavel, René Descartes ou Friedrich Nietzsche. Entretanto, contra o primeiro o preconceito é, sem dúvida, o maior de todos.

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Filosofia, O Que É Isso?

Por mais que se fale em filosofia budista, hindu ou cristã, o entendimento que se tem é que elas não existem por uma questão de essência do próprio conceito de filosofia. Desde suas raízes gregas e toda a tradição posterior, em quase dois milênios e meio, a filosofia existe como uma busca de sentido ao existir. Mas o conceito de filosofia também não pode ser confundido com o de ciência tendo em vista que essa tem um fim utilitário, uma aplicação determinada, além de uma delimitação metodológica. Por exemplo: as pessoas em geral usam a palavra "pensar" para qualquer atividade mental e assim todas pensam, mas não, o cientista não pensa; pelo menos não enquanto cientista. Nos seus estudos acadêmicos ele aprende a fazer algo, desenvolvendo técnicas que outros elaboraram - que outros pensaram. Enquanto disciplina acadêmica, a filosofia também possui técnicas e métodos de estudos e pesquisas, mas não pode ficar presa a parâmetros e determinações laboratoriais. O filósofo pensa porque pensar só pode acontecer quando o ser pensante necessariamente foge de amarras e fins determinados. Mas também não pode ser hindu, budista ou cristã porque a filosofia não deve ser confundida com teologia, apologias religiosas ou aconselhamentos de vida em plenitude. Acontece que as religiões trabalham com verdades já sedimentadas, são suas essências os dogmas, portanto não poderão buscar algo que entendem como já encontrados. A filosofia existe enquanto necessidade humana, enquanto busca desesperada por sentidos para a sua existência; respostas às velhas perguntas: de onde vem? para onde vai? o que faz aqui? além de tantas outras. As pessoas sabem como a energia elétrica caminha por entre as moléculas do cobre, mas não sabem o porquê; sabem como certos alimentos nutrem o corpo animal, mas não sabem o porquê. Quem se preocupa com o como é o cientista moderno; o filósofo quer saber o porquê, pois pensa que no porquê deveria estar o sentido da existência. Se a filosofia nasceu de um desespero humano, isso aconteceu como um grande guarda-chuva abrigando todas as áreas do saber que na modernidade, uma a uma, foram reivindicando suas delimitações, seus objetos de busca, seus métodos e se auto-intitulando ciência. Mas o desespero continuou. Agora a filosofia quer saber o porquê da necessidade de delimitação? Se for para focar num ponto, isso faz surgir ainda outras perguntas: com isso, não se perde na percepção dos seus efeitos colaterais? Esses acadêmicos não fariam isso ávidos por reconhecimento, prestígio, dinheiro? Ainda outra pergunta: por que os humanos sentem essas necessidades? E assim segue a filosofia.

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Existencialismo e Modernidade

Se o racionalismo moderno fundamentou-se em um confronto ao pensamento medieval acusando-o de uma visão dogmática e teocêntrica, também houve quem questionasse a modernidade com suas pretensas noções de certezas e de verdades. Pensadores como Kant, Hegel e Marx foram os grandes marcos da era moderna propondo sistemas que se pretendiam verdades absolutas e inabaláveis; afinal, foram eles que colocaram o tempo na filosofia valorizando a história e a ação humana na transformação da matéria, mas esqueceram os indivíduos com seus medos, anseios e frustrações. Se essas tais "verdades" foram inabaláveis e arrastaram revolucionários e acadêmicos por todo o mundo encontraram também, de dentro dessa mesma modernidade, os seus mais fortes opositores com suas preocupações existencialistas. Dentre esses pode-se citar nomes como Kierkegaard, Schopenhauer e Nietzsche - sem o prestigio daqueles, mas com força suficiente para fazer um intenso enfrentamento. O primeiro fora Soren Kierkegaard - o dinamarquês que desviou o pensamento filosófico das estruturas sistemáticas para discutir a existência humana com suas frustrações, seus medos e desejos. Fez isso aproximando a relação entre a subjetividade do indivíduo e a transcendência de um ser divino. E assim teceu críticas ao pensamento religioso luterano da Dinamarca de sua época alegando que os sacerdotes estariam muito mais preocupados com as benesses do poder político do que com a imitação do Deus que se fez homem para servir de exemplo. Arthur Schopenhauer, por outro lado, enfatizou uma outra preocupação, mas manteve a perspectiva existencialista afirmando que a mente humana trabalha com dois conceitos: a vontade e a representação. Com isso, o indivíduo vive constantemente um impulso na busca por aquilo que não obtém e, assim, sofre. Para ele viver é sofrer. Somente se aplacará esse sofrimento na busca pela arte, pela observação moral, pela justiça e pela anulação da vontade. Seguindo por essa linha e aprofundando ainda mais o debate, ao que se chamou de nihilismo, caminhou Friedrich Nietzsche propondo a destruição dos ídolos construídos pela cultura ocidental. Dizia ele não ser um homem ou um filósofo, mas uma marreta a destruir ídolos. Essa iconoclastia seria a destruição dos dogmas modernos com suas noções de verdade, de ordem moral e todo o sistema de regramento tão caro para o ocidente judaico-cristão.

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Vila da Glória, Uma Experiência Socialista

Um experiência socialista ocorreu no Brasil, na década de 40 - do século 19, quando algumas dezenas de famílias francesas foram alocadas na parte continental do município de São Francisco do Sul e formaram ali o que ficou conhecido como Falanstério do Saí. A colônia fora projetada e dirigida por um tempo pelo um médico homeopata francês, chamado Benoit Jules Mure baseando-se nas ideias do pensador socialista francês, Charles Fourier. O pensamento de Fourier fora enquadrado como socialismo utópico, conforme escreveu Karl Marx dizendo que essas tentativas de criar um sistema tal (Saint-Simon - 1760/1825, Charles Fourier - 1772/1837, Louis Blanc - 1811/1882, Robert Owen - 1771/1852, entre outros) seriam todas fracassadas, já que o socialismo deveria ser pensado sob o ponto de vista científico. A denominação "socialismo utópico" tomaria corpo, mais tarde, na obra de Friedrich Engels quando escreveu Do Socialismo Utópico ao Socialismo Científico, publicada em 1892. Os assim chamados socialistas utópicos foram vistos pelos pensadores sociais como querendo expandir os ideais da Revolução Francesa com o intuito de criar um sistema econômico, social e político mais racional. Entretanto, mesmo rotulados como utópicos pelos marxistas, seus objetivos não eram sempre, necessariamente, utópicos e seus valores incluíam frequentemente suporte científico e almejavam a criação de uma sociedade baseada em tais princípios. O certo é que a utopia do Dr. Mure, a experiência socialista pensada para o sul do Brasil, mais precisamente em terras de Santa Catarina, não chegou a duas décadas e as várias famílias retornaram à França ou seguiram para outros rumos. O que se sabe é que a colônia francesa às margens da Babitonga sofreu dissidência logo nos primeiros anos de sua existência, levando conflito aos recém-chegados e ao surgimento de outras colônias. Enfim, o sonho socialista de construir um mundo novo em que as pessoas vivam segundo o suor do seu rosto, sem explorados ou exploradores, acabou em apenas alguns anos; sobre os motivos fala-se além das dissidências, problemas para escoar a produção e a dificuldades para a obtenção de alimentos, já que não eram agricultores - pois a ideia era de se criar uma colônia industrial. Se muitos debandaram da região, sabe-se que uma família - os Ledoux, permanecem até os dias de hoje por Joinville, na ilha de São Francisco ou mesmo na atual Vila da Glória.

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

O Ocidente, a História e Seus Limites

As denominações dos períodos históricos como Idade Antiga, Idade Média ou Idade Moderna foram feitas pelos eruditos iluministas da modernidade, dentro de uma visão racionalista. Alem desses três períodos, outros momentos foram sendo denominados como a Idade Contemporânea ou a Pré-História e assim, todos os pontos da história foram classificados; esse ultimo - por exemplo - fora divido em Neolítico e Paleolítico que, mais uma vez, fora divido em Superior e Inferior. Esses períodos foram sendo estabelecidos com datas de seu início e seu fim e fixados a partir de um fato histórico marcante; por exemplo: a mudança da Idade Antiga para Idade Média tem a queda do Império Romano do ocidente com a invasão pelos povos bárbaros no ano de 472 aC. Já, marcando o final da Idade Moderna e o início do que fora chamado de Idade Contemporânea encontra-se a Revolução Francesa e, mais precisamente, a Tomada da Bastilha, em 14 de julho de 1789 - quando a população invadiu a prisão que continha os presos inimigos da monarquia e soltaram-nos. Interessante que essas divisões não são consenso em todo o mundo, sendo usadas basicamente pelo Ocidente e pelos países ditos ocidentalizados (colonizados pelos europeus): a América, a Oceania, parte da África e da Ásia. Nesse caso, quando os países ocidentalizados falam de Idade Média ou Antiga, falam do período que fora vivido pela Europa e pelo Oriente Médio e começam suas histórias pelas suas colonizações, já na Idade Moderna. Também não há consenso entre os historiadores dos diversos países com relação ao fato histórico que delimita o fim da Idade Moderna e o início da Idade Contemporânea. Os historiadores brasileiros sempre tiveram uma ligação direta com seus colegas franceses, portanto usam como marco que sinaliza a mudança desses períodos pela Revolução Francesa. Entretanto, há diferenças com relação a outros países. Os ingleses usam a Revolução Inglesa, os alemães a Unificação Alemã, os Russos a Revolução Soviética, enquanto outros usam eventos importantes ocorridos em seus países. O que denota de tudo isso é que essas classificações com datas delimitadoras, não passam de frágeis tentativas de estabelecimento de critérios para entendimentos da história sob a égide ocidental; a história contada pelos europeus e por seus colonizados. Não se pode pensar que isso concretamente seja algo absoluto de entendimento e aceito pela erudição de toda a humanidade.

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Os Modernos São Medievais

A modernidade, esse conceito para além do período chamado de moderno tem significado uma atitude de rompimento à teocracia medieval e ao poder da Igreja, um momento em que a humanidade se pensou atingindo uma racionalidade plena. Mas mesmo assim, mesmo se pensando em um rompimento com a obscuridade da "Idade das Trevas", o que se fez até agora foi apenas reproduzir um outro período com as mesmas tendências medievais. Ora, se a Idade Média fora marcada por uma religiosidade segregacionista e prepotente, a modernidade inteira tem seguido essa mesma trilha com profunda arrogância e intransigência contra todo aquele que não comunga a mesma fé ou da mesma forma. Por outro lado, os eruditos modernos simplesmente trocaram o deus Jaweh e sua depositária do sagrado, a Igreja, pelo deus Razão, suas sociedades científicas e universidades como depositários da verdade. Se num primeiro momento, depois de se decidir nos grandes concílios, a Igreja impunha aos fiéis as suas noções de certo e errado, num outro, da mesma forma, o que se decidem nos grandes congressos científicos sobre o que faz bem ou não para a saúde, se os atros celestes são ou não são dessa ou daquela forma, ou como se forma a matéria será aceito como verdade absoluta por todos, mesmo para o homem comum. Se o homem medieval necessitasse saber a verdade sobre qualquer área não teria dúvida e perguntaria a um representante da Igreja, o sacerdote; o homem moderno se quiser saber sobre essa mesma verdade perguntará ao cientista. Ou seja, o comportamento não mudou, mas apenas as direções e nomenclaturas e a humanidade continua com um pensamento teocêntrico, à espera de um mesmo sentido, um grande pai organizador. Assim, as diversas áreas da ciência moderna se transformaram em congregações medievais com geógrafos, médicos, juristas e sociólogos se achando os únicos depositários da verdade. Esquecem que por milhares de anos a humanidade existiu sem suas presenças, sem suas corporações de ofício e suas reservas de mercado. Corporações essas que para ser admitido o iniciado precisa frequentar os mosteiros modernos por quatro, cinco ou seis anos, fazer reverência a todos os santos e santas, como antigos sacerdotes que fundamentaram o ofício, ler todos os livros sagrados e concluir os ensinamentos em uma grande cerimônia marcada por muitas luzes, discursos, largos vestidos, agradecimentos a família e aos deuses, ruidosas músicas e juramentos convencionais. Ainda se vive a era das trevas, ainda se dorme a noite de mil anos. O homem que se diz moderno ainda é medieval.

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

O Não Saber e o Não Saber Que Não Sabe

A humanidade se caracteriza pela eterna busca por mais conhecimentos e nessa jornada, sempre encontra três dificuldades básicas: num primeiro momento essa dificuldade pode residir em quem ensina, num outro, em quem aprende e, por fim, no conteúdo que se ensina e se aprende. Sendo assim, se a dificuldade de compreender não estiver no conteúdo e nem nas habilidades do mestre, resta tentar entender o processo de compreensão daquele que está disposto a aprender. Nesse caso, a grande dificuldade pode se dar por problemas de saúde e aí figuram doenças mentais e físicas ou simples problemas de ordem cognitiva, mas pode haver também falta de base de dados, de conteúdos anteriores ou simplesmente desconhecimentos de certos conceitos importantes. Por fim, o problema pode ser de ordem comportamental em que o indivíduo acredita já saber algo, criando assim uma barreira e, por isso, não podendo desenvolver os seus conhecimentos. Esse último ponto é de estrema importância e faz pensar no filósofo ateniense, Sócrates. Quando lhe falaram que o oráculo havia dito ser ele o mais sábio ficara perplexo, pois a única certeza que possuía era exatamente que nada sabia. Platão mostra que, depois de muito meditar, Sócrates conclui: certamente deveria ser mesmo o mais sábio de todos, mas isso porque a única certeza que detinha era exatamente que nada sabia. Ora, o mesmo exemplo se tem quando se pensa em Jesus de Nazaré. Segundo os evangelhos, ao ser questionado por pessoas da multidão sobre como deveriam fazer para entrarem no reino do céu, ele afirmara que era preciso se fazer criança; era preciso nascer de novo. Em outra palavras, o aprendizado só acontecerá na medida em que aquele que aprende admite que nada sabe e, por isso busca conhecer. Acontece que há uma diferença básica entre os dois indivíduos: aquele que nada sabe, e se admite como tal, e aquele que sabe algo (nesse caso sabe pouco) ou acredita já saber (geralmente acredita saber muito). Assim, o primeiro, está limpo de alma na espera e na busca do novo saber, o que é diferente do outro que, por crer que já sabe, cria uma barreira o que dificulta a absorção de novos saberes pelo simples fato de serem novos ou de serem saberes que contradizem os anteriores. Ou seja: pior que o não saber é não saber e pensar que sabe.